Oito horas da manhã. Mesmo acordada há muito tempo, espero levantar da cama nessa hora porque sei que o porteiro já colocou meu jornal na porta do ap. Velho hábito esse de levantar, abrir a porta de mil fechaduras, fazer meu café e tomá-lo lendo as últimas notícias no papel, na horizontal, em cima da mesa. Sou usuária e aficionada do computador para escrever, só escrevo nele e com ele. Mas, jornal virtual não me seduz nem um pouco. Folhear as páginas do jornal de papel pela manhã é como se eu abrisse a porta do dia para o mundo. Ok, posso fazer isso na Internet. Mas o gostinho de ir virando cada página é diferente de ler no computador. É como se o jornal de papel tivesse vida, suas páginas me fazendo viajar do meu jeito, eu estou no comando, eu escolho a rota, eu pouso onde quero.
No computador, rolar a página não traz essa mesma sensação, como se eu fosse um robô apertando botões, aproximando e expandindo as letras, cuidando para não mandar a notícia pelos ares se o meu dedo, importante instrumento da leitura virtual, não se comportar direito. Usa-se a expressão "navegar na Internet". Mas, eu navego nas páginas do jornal de papel. Ele é meu interlocutor, com o qual posso discordar com uma virada da página e cujo ruído é uma resposta do seu desagrado por deixá-la ou por eu pensar rápido demais. O computador é silencioso, eu rolo a página e ele não discorda de mim, apenas se deixa manusear, passivamente, sem reação. Mas, quando meu dedo erra, me agride, escondendo o texto que estou lendo, numa terrível vingança.
E quer coisa mais gostosa do que ler o jornal do fim para o começo, de trás para diante ou para o meio? Fazer essa caminhada ao contrário é impossível no computador. Ele não tem essa flexibilidade de uso que o jornal de papel nos dá, essa possibilidade de desorganizar o organizado, de desvirtuar a ordem estabelecida pelos editores e seguir a nossa própria, levada pelo nosso desejo. O computador tem uma organização virtual que, apesar de parecer libertária, nos enquadra na técnica, nos botões, nos cliques certos ou errados que damos e até na horrenda possibilidade de perdermos a página que estamos lendo. E ter que começar tudo de novo. Ou seja, somos interlocutores escravos da tecnologia, tanto que, muitas vezes, ficamos falando sozinhos porque o texto desapareceu. Como quando a bateria acaba, o que quase está acontecendo agora comigo.
O jornal de papel não, ele está ali, nas minhas mãos, e eu comando minha leitura, meu movimento de ir e vir sem botões, sem uma queda de luz que tire o texto da minha frente ou perturbe minha concentração. Ou que me faça ter que levantar correndo para ir ligá-lo na tomada e recarregar a maldita bateria que está acabando. O jornal de papel não "me deixa na mão", cortando meu papo amigo com as letras impressas nas páginas que ganham vida "pelas minhas mãos". Eu sou sua bateria, carregando e descarregando suas páginas na medida do meu interesse e do meu prazer de ler.
O jornal de papel não, ele está ali, nas minhas mãos, e eu comando minha leitura, meu movimento de ir e vir sem botões, sem uma queda de luz que tire o texto da minha frente ou perturbe minha concentração. Ou que me faça ter que levantar correndo para ir ligá-lo na tomada e recarregar a maldita bateria que está acabando. O jornal de papel não "me deixa na mão", cortando meu papo amigo com as letras impressas nas páginas que ganham vida "pelas minhas mãos". Eu sou sua bateria, carregando e descarregando suas páginas na medida do meu interesse e do meu prazer de ler.