Alhos e Retalhos

Bom, se estão estranhando o nome do blog, explico. Retalhos é sobre o que pretendo escrever - retalhos de sentimentos, percepções, observações, leituras, indignações, alegrias, curiosidades, filmes, etc etc. Reunidos, eles formarão uma colcha de patchwork de vivências. E qual o papel do alho nisso tudo? Ora, não existe um ditado "alhos e bugalhos"? Pois é, o alho também é formado por diversos pedaços, nem todos gostam de seu sabor, mas se usado com parcimônia, é gostoso, demasiadamente fica insuportável. Então, pretendo que o alho funcione como balizador dos meus retalhos. De vez em quando posso extrapolar os limites e meus comentários ficarão intragáveis, outras vezes poderão ser digeridos de forma mais suportável. Se alguém não gostar de meus retalhos, não se preocupe, lave as ideias que o cheiro de alho sai logo. Ah, e alhos também significa que vou postar algumas receitas gostosas para vocês!

sábado, 14 de dezembro de 2013

A FORÇA DA PROPAGANDA

Terminei de ver no Youtube a propaganda de Natal do Zaffari. Como sempre, elas me emocionam muito pela sensibilidade e singeleza da mensagem.
Sempre fui apaixonada por propagandas. Quando era pequena, lá pelos meus cinco ou seis anos anos, creio que tive percepção, sem o saber, da força que elas exercem no imaginário das pessoas. De certa forma, também descobri como elas podem ser enganosas. 
 Lembro de ter me escondido no banheiro para descascar com uma faca, surripiada na cozinha, um sabonete Lever, verde e grande. Eu achava o máximo me ensaboar com o sabonete das estrelas. Era o que estava escrito no papel que o envolvia: o sabonete das estrelas. Sem nenhum contato com a sedução do cinema de Hollywood, eu acreditava concretamente que dentro dele havia estrelinhas.  Nada mais justo do que abri-lo para ver se era verdade. Mentira, ao cortá-lo e esburacá-lo encontrei só a bronca da mãe, primeiro porque me tranquei no banheiro, segundo porque estraguei o sabonete. E não achei as estrelas prometidas. O mistério acabou e, junto com ele, a magia de tomar banho com sua espuma, que era apenas uma mesmice.
Outro produto que me aquecia a imaginação era o talco Alma de Flores. A gravura da linda moça, com cara de Cinderela e um belo e diáfano vestido tomara que caia, era a encarnação da beleza feminina para uma menininha. E eu usava um monte de talco depois do banho, deixando o banheiro como se tivesse caído uma nevasca, levando mais bronca da mãe. Muito tempo depois, esse mesmo perfume apareceu em minha vida, na casa geriátrica onde minha avó vivia. Era o talco usado para a higiene dos idosos e até hoje, quando me lembro do cheiro, tenho náuseas olfativas e sentimentais.  Propaganda enganosa, a linda moça da gravura ficou feia, velha, triste.
Mas a mais enganosa de todas foi a da Emulsão de Scott.  O rótulo tinha um homem com um peixe enorme pendurado nas costas. Era um líquido branco, com um cheiro e gosto horrível de óleo de peixe, na verdade era óleo de fígado de bacalhau. Eu gosto de comer peixe, mas tem que ser com um molho bem temperado que disfarce o gosto do bicho, gosto esse que ficou grudado nas minhas lembranças gustativas e olfativas. A mãe dizia que tínhamos que tomar para crescer. Propaganda enganosa, pois tomei vidros e vidros e nunca passei de um metro e cinquenta e seis, agora bem menos com a idade.

A propaganda é a alma das vendas. Eu admiro a capacidade criativa e envolvente de algumas delas, pois são muito bem feitas, nos fazem viajar nas asas da imaginação, nos emocionam, nos fazem rir. Até esqueço qual produto estão vendendo, o que parece que não configura uma boa propaganda, segundo os especialistas. Ou talvez a maturidade me fez aprender a curtir as imagens, sem precisar abrir sabonetes para procurar as prometidas estrelas escondidas lá dentro. 

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Viajando pelo Jornal de Papel

         Oito horas da manhã. Mesmo acordada há muito tempo, espero levantar da cama nessa hora porque sei que o porteiro já colocou meu jornal na porta do ap. Velho hábito esse de levantar, abrir a porta de mil fechaduras, fazer meu café e tomá-lo lendo as últimas notícias no papel, na horizontal, em cima da mesa. Sou usuária e aficionada do computador para escrever, só escrevo nele e com ele. Mas, jornal virtual não me seduz nem um pouco. Folhear as páginas do jornal de papel pela manhã é como se eu abrisse a porta do dia para o mundo. Ok, posso fazer isso na Internet. Mas o gostinho de ir virando cada página é diferente de ler no computador. É como se o jornal de papel tivesse vida, suas páginas me fazendo viajar do meu jeito, eu estou no comando, eu escolho a rota, eu pouso onde quero. 
         No computador, rolar a página não traz essa mesma sensação, como se eu fosse um robô apertando botões, aproximando e expandindo as letras, cuidando para não mandar a notícia pelos ares se o meu dedo, importante instrumento da leitura virtual, não se comportar direito. Usa-se a expressão "navegar na Internet". Mas, eu navego nas páginas do jornal de papel. Ele é meu interlocutor, com o qual posso discordar com uma virada da página  e cujo ruído é uma resposta do seu desagrado por deixá-la ou por eu pensar rápido demais. O computador é silencioso, eu rolo a página e ele não discorda de mim, apenas se deixa manusear, passivamente, sem reação. Mas, quando meu dedo erra, me agride, escondendo o texto que estou lendo, numa terrível vingança.
        E quer coisa mais gostosa do que ler o jornal do fim para o começo, de trás para diante ou para o meio? Fazer  essa caminhada ao contrário é impossível no computador. Ele não tem essa flexibilidade de uso que o jornal de papel nos dá, essa possibilidade de desorganizar o organizado, de desvirtuar a ordem estabelecida pelos editores e seguir a nossa própria, levada pelo nosso desejo. O computador tem uma organização virtual que, apesar de parecer libertária, nos enquadra na técnica, nos botões, nos cliques certos ou errados que damos e até na horrenda possibilidade de perdermos a página que estamos lendo. E ter que começar tudo de novo. Ou seja, somos interlocutores escravos da tecnologia, tanto que, muitas vezes, ficamos falando sozinhos porque o texto desapareceu. Como quando a bateria acaba, o que quase está acontecendo agora comigo.
        O jornal de papel não, ele está ali, nas minhas mãos, e eu comando minha leitura, meu movimento de ir e vir sem botões, sem uma queda de luz que tire o texto da minha frente ou perturbe minha concentração. Ou que me faça ter que levantar correndo para ir ligá-lo na tomada e recarregar a maldita bateria que está acabando. O jornal de papel não "me deixa na mão", cortando meu papo amigo com as letras impressas nas páginas que ganham vida "pelas  minhas mãos". Eu sou sua bateria,  carregando e descarregando suas páginas na medida do meu interesse e do meu prazer de ler.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Um livro imperdível - A Queda

Diogo Mainardi - muitos não gostam do seu estilo e de seus posicionamentos como jornalista. Eu gosto e muito!! Sarcástico e ferino, vai direto ao ponto, sem meias palavras.

Bom, mas terminei de ler seu último livro - A QUEDA - as memórias de um pai em 424 passos. Seu primeiro filho, nascido em Veneza, por um erro médico no momento do parto, tem paralisia cerebral. E Diogo pai/autor nos conduz pelos caminhos dele com Tito, um passo após outro, "tecendo uma teia que enreda sua história familiar e a da literatura, da arte e das ideias". Uma lição de vida e de amor, de história e de arte. Nada de sentimentalismo ou tentativas de se mostrar como exemplo. Não é livro para se ler e ficar chorando. Como ele mesmo diz "O livro que converte meus sentimentos em seu equivalente intelectual é esse aqui" (312). E nós acompanhamos  os passos de Tito com seu pai pelos meandros do cotidiano de suas necessidades e possibilidades, mas também da história, das artes, dos personagens que vão brotando das relações que o autor/pai  estabelece com a trajetória dos dois em busca do tempo perdido. E que se recupera.  É lindo ver como ele se despe da vaidade ilusória de ser o centro do universo e Tito passa a ser "o resultado de tudo que eu havia visto e lido. Em particular, ele era o resultado de tudo o que eu amava." (238)
 
Não deixem de acompanhar essa caminhada, expressa nos 424 passos de um pai com seu filho! Tito continua a caminhar, Diogo parou de contar seus passos e os leitores aprendem que saber cair tem muito mais valor do que saber caminhar. Tito e Diogo que o digam!

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Retificando...mas não mudando o retalho!

Segundo a propaganda do governo na ZH, o Rio Grande do Sul tirou o primeiro lugar nas provas  do Ideb de Português e o 2º em  Matemática, no Ensino Médio. Mas, os indíces baixaram:

"A nota do ensino médio em nove Estados diminuiu de 2009 para 2011. É o que mostram os dados do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) 2011, divulgados pelo MEC (Ministério da Educação) nesta terça-feira (14). São eles: Acre, Maranhão, Espírito Santo, Pará, Alagoas, Paraná, Paraíba, Bahia e Rio Grande do Sul. "
E no Ensino Fundamental, ficamos assim:
"Nos anos finais do Ensino Fundamental, o desempenho do Rio Grande do Sul não foi empolgante. Além de não atingir o Ideb almejado de 4,3 – obteve 4,1 –, o Estado manteve o mesmo índice do Ideb anterior, de 2009, o que reflete uma estagnação. Na rede pública, também houve estagnação sem atingimento de meta – em vez de atingir o Ideb de 4,1, o Estado ficou com 3,9, mesmo índice do Ideb de dois anos antes."

Será que justifica a propaganda no jornal?

terça-feira, 28 de agosto de 2012

DISCURSO E PRÁTICA

Hoje tivemos um exemplo da distância que existe entre discurso e prática. No lançamento da campanha da RBS A Educação Precisa de Respostas, o secretário de educação do RS deu esse exemplo. Questionado sobre quais as políticas para a formação continuada dos professores previstas para o RS,  fez um longo discurso TEÓRICO (generalista) sobre a escola atual, suas necessidades, qual o papel do professor, a importância de sua formação continuada, o aluno como protagonista e por aí afora. "Deu" uma aula para os espectadores e para os convidados. Quanto a propostas operacionais para colocar isso em prática, NADA , a não ser um tímido dado de que as universidades estão integradas a esse movimento. Qual movimento, sr. secretário? Que ações concretas estão sendo deflagradas, como a secretária de Educação do RJ, o secretário de SC e o próprio Ministro de Educação  abordaram?  Era o momento para falar sobre isso, para o bem do RS! E que papo foi esse de que o RS teve as melhores notas em Português e Matemática no Ideb?  E a longa abordagem sobre o plano de carreira e que os professores estão ganhando o piso? Mas, por que cargas d'água eles estão reclamando em outdoors pela cidade (que fique claro, não concordo com eles)?  Ouvi mal ou não entendi bem? Mas, vi sorrisos disfarçados nos convidados do RS, de diferentes cidades, enquanto o sr. falava. Ora, sr. secretário, menos "aula" e mais ação! O sr. está repetindo o erro das nossas agências de formação!!! Muito discurso, pouca prática. Falo com conhecimento de causa, 46 anos labutando como professora e coordenadora pedagógia de escolas estaduais (Instituto de Educação - época dourada, com suas escolas de estágio)  e particulares, além de professora de curso de Pedagogia. Acorde, sr. secretário, gestão proativa é o que precisamos para nossa combalida educação!