A
FORÇA DA PROPAGANDA
Terminei de ver no Youtube a
propaganda de Natal do Zaffari. Como sempre, elas me emocionam muito pela
sensibilidade e singeleza da mensagem.
Sempre fui apaixonada por propagandas.
Quando era pequena, lá pelos meus cinco ou seis anos anos, creio que tive
percepção, sem o saber, da força que elas exercem no imaginário das pessoas. De
certa forma, também descobri como elas podem ser enganosas.
Lembro de ter me escondido no banheiro
para descascar com uma faca, surripiada na cozinha, um sabonete Lever, verde e
grande. Eu achava o máximo me ensaboar com o sabonete das estrelas. Era o que
estava escrito no papel que o envolvia: o sabonete das estrelas. Sem nenhum
contato com a sedução do cinema de Hollywood, eu acreditava concretamente que
dentro dele havia estrelinhas. Nada mais
justo do que abri-lo para ver se era verdade. Mentira, ao cortá-lo e
esburacá-lo encontrei só a bronca da mãe, primeiro porque me tranquei no
banheiro, segundo porque estraguei o sabonete. E não achei as estrelas
prometidas. O mistério acabou e, junto com ele, a magia de tomar banho com sua
espuma, que era apenas uma mesmice.
Outro produto que me aquecia a
imaginação era o talco Alma de Flores. A gravura da linda moça, com cara de
Cinderela e um belo e diáfano vestido tomara que caia, era a encarnação da
beleza feminina para uma menininha. E eu usava um monte de talco depois do
banho, deixando o banheiro como se tivesse caído uma nevasca, levando mais
bronca da mãe. Muito tempo depois, esse mesmo perfume apareceu em minha vida,
na casa geriátrica onde minha avó vivia. Era o talco usado para a higiene dos
idosos e até hoje, quando me lembro do cheiro, tenho náuseas olfativas e
sentimentais. Propaganda enganosa, a
linda moça da gravura ficou feia, velha, triste.
Mas a mais enganosa de todas foi a da
Emulsão de Scott. O rótulo tinha um
homem com um peixe enorme pendurado nas costas. Era um líquido branco, com um
cheiro e gosto horrível de óleo de peixe, na verdade era óleo de fígado de
bacalhau. Eu gosto de comer peixe, mas tem que ser com um molho bem temperado
que disfarce o gosto do bicho, gosto esse que ficou grudado nas minhas
lembranças gustativas e olfativas. A mãe dizia que tínhamos que tomar para
crescer. Propaganda enganosa, pois tomei vidros e vidros e nunca passei de um
metro e cinquenta e seis, agora bem menos com a idade.
A propaganda é a alma das vendas. Eu admiro
a capacidade criativa e envolvente de algumas delas, pois são muito bem feitas,
nos fazem viajar nas asas da imaginação, nos emocionam, nos fazem rir. Até esqueço
qual produto estão vendendo, o que parece que não configura uma boa propaganda,
segundo os especialistas. Ou talvez a maturidade me fez aprender a curtir as
imagens, sem precisar abrir sabonetes para procurar as prometidas estrelas escondidas
lá dentro.
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